terça-feira, 24 de julho de 2012

Só o amor salva


Alto, forte, mãos ásperas, cabelo comprido, roupas simples e jeitão de índio. À primeira vista de olhos preconceituosos, o artista Jordão pode ser confundido com um nômade que sobrevive do artesanato que vende aos turistas que visitam Natal, no Rio Grande do Norte. Anônimo na multidão José Jordão Arimatéia é — simplesmente — um dos maiores escultores de painéis em cimento do continente.

Certo, pode até ser exagero, mas além da estatura corpulenta, esse natalense de 59 anos prefere trabalhar com grandes esculturas e painéis gigantes que adornam fachadas de prédios e auditórios. Como se não bastasse, é dele o maior painel de concreto da América Latina.

A história de sua infância humilde poderia muito bem ser confundida com outras não fosse pela arte. Aos oito anos, ainda José Arimatéia, o artista trabalhava em uma fábrica de pré-moldados de cimento e sempre dava um jeito da massa sobrar. “Tinha um quartinho nos fundos da fábrica que foi meu primeiro ateliê. Ninguém sabia de nada. Quando o dono descobriu primeiro levei uma bronca, mas ele percebeu algo e acabou permitindo que continuasse a criar”, lembrou.

"Desde os quatro anos sabia que ia ser artista"

O “Jordão” foi incorporado aos 14 para 15 anos — “um apelido dado por minha professora, inspirada no rio que a Bíblia tanto fala, pois vendia lata d’água no bairro pra ganhar uns trocados”, desconversa o índio caboclo. Pouco depois, como muitos adolescentes de tantas famílias brasileiras menos favorecidas, José Jordão Arimatéia teve que abandonar os estudos e ir ‘se virar’: “Nunca tive outra profissão, sempre fui artista. Aos quatro anos já sabia que ia ser e que queria ganhar a vida como artista”, diz com orgulho. “Tive que ir trabalhar para criar um menino que deixaram na nossa porta. Vendia esculturas de santos em barro pra vizinhança”.

Esculturas que viraram atração turística

Entre os anos 1970 e 80, o artista — filho de Severina Maria da Conceição, lavadeira e cozinheira, ainda viva — assinou vários trabalhos que até hoje chamam a atenção de quem passa em frente a seus trabalhos. Em Natal, os mais significativos são facilmente identificados na paisagem urbana da capital potiguar: no estacionamento do antigo hotel São Francisco, no bairro do Alecrim (atualmente Hotel Buriti www.hotelburiti.com.br), grandes figuras de concretos parecem saltar do muro no estacionamento do lugar.

As estátuas — hoje ponto turístico do movimentado bairro comercial — representam divindades dos mares, como um sisudo Netuno rodeado por sua corte de sereias. “Não terminei esse trabalho, acertei no dinheiro da época 83 mil e só recebi 3 mil”, conta com mágoa. É, realmente o painel com quase três metros de altura por 15 de comprimento vai se esvaindo até se tornar um amontoado de cimento sem forma definida. Questionado, o jovem recepcionista — que provavelmente ainda engatinhava quando Jordão ‘pegou o serviço’ — não soube dizer o nome do artista e afirmou que a parte inacabada tinha desmoronado (!).

Outra grande obra do artista é a fachada do Centro de Convenções de Natal, no início da Via Costeira em Ponta Negra — avenida entre o mar e o Parque das Dunas (área de proteção ambiental) onde se concentram os principais hotéis da cidade. Ao todo são seis painéis: o externo, de aproximadamente sete metros de altura por 25 de comprimento, retrata a paisagem costeira com coqueiros, cajus, jangadeiros e deusas das águas. No saguão de entrada, uma enorme rendeira e um pescador carregando peixes e cajus dão as boas vindas. Mais adiante no foyer do auditório, também feito de cimento, um trabalho com motivos indígenas domina uma das paredes. Na ala central, dois painéis de latão: de um lado um retrato do cangaceiro Lampião, do outro as salineiras de Macau — cidade do litoral norte do Estado, maior pólo produtor de sal do País.

“Também trabalho com barro, areia, latão e madeira, mas gosto mesmo é do cimento”, garante. Jordão contou que o painel principal do Centro de Convenções levou cerca de três meses para ser concluído.

A um passo de ganhar o mundo

Sem telefone para contato, cruzei Jordão dentro de um ônibus e fiquei sabendo que ele havia voltado à ativa e que estava restaurando seus trabalhos no Centro de Convenções. Encontrar esse artista ermitão é uma raridade, era a oportunidade que faltava para marcar um encontro no dia seguinte.

E o amor entra na história

Mas 'peraê': como assim "voltado à ativa"?

Antes de contar o porquê dessa “volta à ativa”, e é aí que entra o amor na história, tem outros dois trabalhos que merecem destaque: um painel no posto de gasolina Santo Expedito, situado na avenida Alexandrino de Alencar, bairro Barro Vermelho, e o maior painel de concreto da América Latina que enfeita a fachada do edifício residencial Riomar, na Cidade Alta, com motivos tropicais. “Aquele do posto é um dos que mais gosto, é uma romaria conduzida por Luiz Gonzaga à casa de Frei Damião (se é que ele tinha uma casa fixa?) e o do Riomar é que está no Guiness (livro dos recordes)”, informa.

Seu método de trabalho parece simples: “Ninguém me diz o que quer. Faço uma pesquisa, converso com as pessoas que estão encomendando o trabalho para ver o que elas querem, o que estão pensando. Aí imagino tudo e faço os riscos na parede. Depois vem o pedreiro e ajudantes que vão cortando o cimento de acordo com o que vou dizendo... e por aí vai”.

Bem, depois de todos esses trabalhos seu nome ficou conhecido na praça e os convites para trabalhar em outros lugares foram surgindo. “Nessa época fui expor na primeira Bienal de Fortaleza e depois fui trabalhar para um estrangeiro no Rio de Janeiro que me deu uma passagem para conhecer a França. Passei 15 dias em Paris, mas acabei nem conhecendo muita coisa... sabe como é: não estava bem enturmado”, lembra.

De volta ao Rio de Janeiro, foi notícia no Jornal do Brasil e recebeu a proposta de fixar residência por lá mesmo. Estava empolgado e planejou montar sua equipe com gente sua. Retornou à Natal para buscar a família e convidar artistas que haviam sido seus assistentes anteriormente. “Meu erro foi não ter cortado o cordão umbilical. Quando minha família não quis ir comigo ao Rio preferi não voltar. Um erro que até hoje me arrependo. Se fosse hoje não pensaria duas vezes: iria sem olhar pra trás. Perdi toda minha inspiração e deixei de produzir”, confessa com olhar distante.

De artista à ebrio errante, e de novo artista

Jordão mergulhou em um poço que parecia não ter fim: gastou todo o dinheiro que havia ganho, entregou-se à bebida e só fazia uma “esculturazinha ali e outra acolá para levantar um troco”. Nisso passaram-se mais de 15 anos. “Perdi a criatividade, a inspiração. Por desgosto mesmo! Vergonha da sociedade”.

Andou sem eira nem beira, meteu-se com gente que não devia, arranjou confusão até que ‘deu a louca’ e resolveu deixar tudo para trás. Aos 56 anos, morando no mesmo bairro que o viu nascer (parte baixa de Petrópolis, quase Rocas, na beira da praia urbana do Meio), Jordão resolveu atravessar a nado o rio Potengi só com a roupa do corpo e foi se instalar na outra margem, praia da Redinha. O rio Potengi separa a zona norte da zona sul da cidade e, em sua foz, fica o famoso Forte dos Reis Magos. “Na Redinha virei pescador. Passava o dia bebendo e quando precisava pescava alguma coisa”.

Até que um dia alguém o reconheceu e encomendou umas esculturas para decorar um restaurante. “Lembro até hoje: ganhei R$ 250 reais, paguei R$ 150 que devia na praça e guardei R$ 100 em cheque. Sai dali andando, em direção ao norte, até chegar em Maracajaú (praia). Continuei pescando e bebendo, mas aos poucos voltei a me envolver com arte. Dei alguns cursos na cidade e acabei conhecendo Alcione, irmã de uma aluna minha”. Nada estranho se Alcione não tivesse apenas 13 anos, 44 anos a menos que Jordão.

Namorinho de portão

“Foi amor à primeira vista!”, disse a menina que hoje tem 16 anos. “Na verdade me apaixonei antes mesmo de conhecer ele. As meninas diziam que tinha um homem com o nome de Jordão. O artista que estava dando aulas na cidade”. Quando Alcione ficou sabendo que ele estava na padaria, pediu para a mãe pra ir comprar o pão — “e olha que eu nunca queria ir”, salientou. Dava para sentir a curiosidade e o amor que a menina exalava por seu "painho" em todos os seus gestos.

“Conheci ele e comecei a gostar dele. Ele começou a ir lá em casa tomar café e ver televisão, só depois de uns três meses que fomos dar o primeiro beijo. Nunca tinha beijado ninguém e disse que só iria namorar ele se tirasse a barba e parasse de beber”, contou a adolescente. “Aí as pessoas começaram a olhar pra ele... não é amor?! Só que já estávamos namorando”, disse com o aval e o olhar cúmplice e carinhoso do artista.

Claro que Alcione teve que enfrentar toda a família. Ouviu o que não queria, se defendeu como pôde e teve a coragem de sair de casa para viver seu amor. “Foi Alcione que me salvou, quem estendeu a corda para eu sair do poço. Quero me casar com ela. Hoje eu quero é trabalhar e criar minhas obras”, garante. Jordão ainda não se separou no papel da primeira esposa, com quem teve três filhas: Jordânia, Bristiane, de 21 anos, e Joyce, 19.

Com o dinheiro que já conseguiu juntar, comprou uma casinha simples no alto da rua do Motor — com direito à vista para o mar e quintal íngreme com muitas árvores frutíferas — no mesmo bairro onde cresceu. Montou um ateliê improvisado nos fundos, onde me recebeu com vinho e peixe frito. Cheio de planos, pensa em comprar os terrenos vizinhos para construir sua nova casa e um ateliê maior. “Também quero organizar uma exposição individual com os trabalhos de Alcione... ela é meu porto seguro e estou aqui por causa do nosso amor”, aposta.

Se o final será feliz só o tempo dirá, o fato é que a arte de Jordão voltou a correr em suas veias movido pelo amor juvenil de Alcione. Disso ninguém pode duvidar!!

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Gerson Castelo Branco
Texto Joni Anderson | Adaptação Renacha Batista | Fotos Divulgação
Nascido em Parnaíba, no Piauí, designer autodidata, Gerson Castelo Branco já soma 40 anos de profissão. Em centenas de trabalhos, ele conseguiu imprimir o seu estilo na arquitetura e no design de interiores, reconhecido inclusive internacionalmente. Mas a história desse profissional começou totalmente por acaso aos 14 anos, quando a família já havia se mudado para Fortaleza.

Desajeitado nos esportes, foi nessa época que descobriu a habilidade de reproduzir e desenhar uma perspectiva. Tomou gosto pela coisa. Depois, prestou por duas vezes vestibular para a faculdade de arquitetura, mas acabou entrando na Universidade de Belas Artes na Bahia. Não concluiu, mas apurou ainda mais o olhar.

“Eram os anos 1970 e a Bahia de Caetano, Gal e Gil, era o lugar efervescente para se estar naquele instante”, relembra. Nessa época, já trabalhava informalmente em um escritório de arquitetura. Tornou-se autodidata e também pôs o pé na estrada, no melhor estilo hippie, on the road. Visitou a Cordilheira dos Andes, adentrou a selva amazônica, conviveu com tribos indígenas e ficou totalmente sem dinheiro.





“A vivência dos povos andinos foi uma experiência transcendental; me deixou com outros hábitos. Quando regressei ao Brasil, já não conseguia morar na cidade nem entendia a ostentação arquitetônica de muitas casas. Vivemos numa incoerência absurda, com arquitetura e décor europeus e necessidades de um país tropical. Essa experiência me fez buscar alternativas”



De volta ao Piauí, resolveu virar ermitão, construiu a sua própria casa de praia no meio do nada e da maneira mais rústica possível. Sem água, sem luz, nem estrada por perto. Gerson ergueu paredes de taipa, utilizou a palha de carnaúba no teto e esteiras de cipó de macaco. O mobiliário, todo reaproveitado, era fundamentalmente formado por chaises imensas, também aproveitadas como camas. Gerson também usou mobiliário artesanal do Ceará.  “Usei tudo o que estava à mão para transformar”.

Despretensiosa e original, a casa virou um ícone. Ainda hoje, a Casa da Pedra do Sol é ponto turístico da Praia do Coqueiro. Gerson mal sabia, mas aí começariam as bases e os diferenciais do seu trabalho, que batizou de "Paraqueira", como ele designava, ainda criança, a alegria, a satisfação, os momentos alegres da infância.

Datada de 1986, a Casa da Pedra do Sal, na ilha de Santa Isabel, no Piauí, foi construída em carnaíba, laje de castelo e talo de babaçu. Para o seu autor, defensor da identidade brasileira e de raízes nordestinas na arquitetura e no décor, a casa contempla e respeita a natureza
Mais tarde, numa dessas coincidências, descobriu que paraqueira é também o nome de uma árvore da Amazônia. Hoje, é significado de identidade, de resgate das raízes culturais na arquitetura, no décor e no design. “É uma  proposta de morar diferente, é a identidade brasileira com raízes nordestinas, preocupada com a melhor implantação do projeto no local; respeito à natureza, reverência ao sol, à ventilação, à natureza”, complementa o autor.



A partir daí, a procura para a execução de projetos residenciais não parou mais. Primeiro foi chamado para reformar uma casa de praia. Na sequência os pedidos começaram a chegar da capital. “A arquitetura de Teresina era uma arquitetura de caixas, cheia de vidros, algo cenográfico, mas fora da realidade quente do estado. Fiz isso durante três anos, mas também era muito influenciado pela arquitetura de Janete Costa e Acácio Gil Borsoi”, diz. “Um casal genial que revolucionou a arquitetura estabelecida. Janete foi uma amiga do coração; fazíamos jantares na casa deles em Recife”.

A experiência pela Amazônia também influenciou o trabalho de Gerson e ajudou a definir um de seus traços marcantes: o emprego das formas geométricas da asa-delta, que também lembram dobraduras ou os origamis de papel. Na serra, a 700 metros de altitude, ele ergueu uma casa assim, montada sobre pilares com mão-francesa e meias-paredes. Na prática, também passou a usar novos materiais, antes mesmo da questão ecológica entrar em pauta. Eucalipto autoclavado, tetos altos em taubília, também passaram a ser recorrentes em seus trabalhos.


Situada em Viçosa, no Ceará, o projeto Paraqueira in Natura foi planejado em um terreno de 33 hectares de mata preservada rodeada por sete cachoeiras. Apesar das formas rebuscadas, a casa não passou por nenhuma prancheta. O resultado é esta construção que concedeu três prêmios e 8 páginas na Architectura USA para Gerson Castelo Branco. A construção começou a partir do telhado com toras de Carnaúba, talos de babaçu, madeira, pedra e vidro

A partir de 1978, seus projetos foram descobertos e publicados pela primeira vez em uma publicação dirigida por Olga Krell e seu olhar especial para o talento. Foi o primeiro reconhecimento dos muitos que vieram a seguir. Prêmios nacionais e internacionais e matérias na revista norte-americana Architectural Digest (revista que comparou suas criações às de Frank Lloyd Wright) são alguns dos pontos altos do trabalho de Gerson.

Mesmo autodidata, além de aumentar os projetos, seu conhecimento e originalidade o levaram a ser chamado para palestras e eventos de arquitetura justamente por ser precursor desse apelo sustentável. Na Costa Rica, foi convidado especial de um encontro mundial de arquitetura verde. Fotografados, outros projetos foram publicados na Rússia, Austrália, Alemanha, França, Itália e até no longínquo Vietnã. “Já fazia pela própria vivência e necessidade... Tudo era improvisado”. Mas suas linhas não são exatamente para locais longe da metrópole. Ele assina projetos urbanos inconfundíveis, para onde leva suas propostas devidamente adaptadas à urbe.

Hoje, Gerson Castelo Branco mora em Viçosa, cidade na divisa entre Ceará e Piauí, tem escritório em Fortaleza e uma casa de praia no Piauí. Mantém vivo o espírito aventureiro e o olhar atento para os recursos naturais. Aprendeu paisagismo, aprimorou o décor de interiores, mas não afrouxou a visão própria sobre o Brasil e os brasileiros na questão. “Ainda hoje há uma interferência muito grande das referências estrangeiras na arquitetura e na decoração. Convivo com proprietários que compram mobiliário em Miami mas também aprenderam a valorizar elementos artesanais. A casa virou um grande parangolé”, brinca.

No litoral norte de São Paulo, a casa projetada por Gerson Castelo Branco preserva a mata e se integra ao meio ambiente graças aos pilares de eucalipto autoclavado com 15 metros de altura
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