Alto, forte, mãos ásperas, cabelo comprido, roupas simples e
jeitão de índio. À primeira vista de olhos preconceituosos, o artista
Jordão pode ser confundido com um nômade que sobrevive do artesanato que
vende aos turistas que visitam Natal, no Rio Grande do Norte. Anônimo
na multidão José Jordão Arimatéia é — simplesmente — um dos maiores
escultores de painéis em cimento do continente.
Certo, pode até ser exagero, mas além da estatura corpulenta, esse
natalense de 59 anos prefere trabalhar com grandes esculturas e painéis
gigantes que adornam fachadas de prédios e auditórios. Como se não
bastasse, é dele o maior painel de concreto da América Latina.
A história de sua infância humilde poderia muito bem ser confundida com
outras não fosse pela arte. Aos oito anos, ainda José Arimatéia, o
artista trabalhava em uma fábrica de pré-moldados de cimento e sempre
dava um jeito da massa sobrar. “Tinha um quartinho nos fundos da fábrica
que foi meu primeiro ateliê. Ninguém sabia de nada. Quando o dono
descobriu primeiro levei uma bronca, mas ele percebeu algo e acabou
permitindo que continuasse a criar”, lembrou.
"Desde os quatro anos sabia que ia ser artista"
O “Jordão” foi incorporado aos 14 para 15 anos — “um apelido dado por
minha professora, inspirada no rio que a Bíblia tanto fala, pois vendia
lata d’água no bairro pra ganhar uns trocados”, desconversa o índio
caboclo. Pouco depois, como muitos adolescentes de tantas famílias
brasileiras menos favorecidas, José Jordão Arimatéia teve que abandonar
os estudos e ir ‘se virar’: “Nunca tive outra profissão, sempre fui
artista. Aos quatro anos já sabia que ia ser e que queria ganhar a vida
como artista”, diz com orgulho. “Tive que ir trabalhar para criar um
menino que deixaram na nossa porta. Vendia esculturas de santos em barro
pra vizinhança”.
Esculturas que viraram atração turística
Entre os anos 1970 e 80, o artista — filho de Severina Maria da
Conceição, lavadeira e cozinheira, ainda viva — assinou vários trabalhos
que até hoje chamam a atenção de quem passa em frente a seus trabalhos.
Em Natal, os mais significativos são facilmente identificados na
paisagem urbana da capital potiguar: no estacionamento do antigo hotel
São Francisco, no bairro do Alecrim (atualmente Hotel Buriti
www.hotelburiti.com.br), grandes figuras de concretos parecem saltar do muro no estacionamento do lugar.
As estátuas — hoje ponto turístico do movimentado bairro comercial —
representam divindades dos mares, como um sisudo Netuno rodeado por sua
corte de sereias. “Não terminei esse trabalho, acertei no dinheiro da
época 83 mil e só recebi 3 mil”, conta com mágoa. É, realmente o painel
com quase três metros de altura por 15 de comprimento vai se esvaindo
até se tornar um amontoado de cimento sem forma definida. Questionado, o
jovem recepcionista — que provavelmente ainda engatinhava quando Jordão
‘pegou o serviço’ — não soube dizer o nome do artista e afirmou que a
parte inacabada tinha desmoronado (!).
Outra grande obra do artista é a fachada do Centro de Convenções de
Natal, no início da Via Costeira em Ponta Negra — avenida entre o mar e o
Parque das Dunas (área de proteção ambiental) onde se concentram os
principais hotéis da cidade. Ao todo são seis painéis: o externo, de
aproximadamente sete metros de altura por 25 de comprimento, retrata a
paisagem costeira com coqueiros, cajus, jangadeiros e deusas das águas.
No saguão de entrada, uma enorme rendeira e um pescador carregando
peixes e cajus dão as boas vindas. Mais adiante no foyer do auditório,
também feito de cimento, um trabalho com motivos indígenas domina uma
das paredes. Na ala central, dois painéis de latão: de um lado um
retrato do cangaceiro Lampião, do outro as salineiras de Macau — cidade
do litoral norte do Estado, maior pólo produtor de sal do País.
“Também trabalho com barro, areia, latão e madeira, mas gosto mesmo é do
cimento”, garante. Jordão contou que o painel principal do Centro de
Convenções levou cerca de três meses para ser concluído.
A um passo de ganhar o mundo
Sem telefone para contato, cruzei Jordão dentro de um ônibus e fiquei
sabendo que ele havia voltado à ativa e que estava restaurando seus
trabalhos no Centro de Convenções. Encontrar esse artista ermitão é uma
raridade, era a oportunidade que faltava para marcar um encontro no dia
seguinte.
E o amor entra na história
Mas 'peraê': como assim "voltado à ativa"?
Antes de contar o porquê dessa “volta à ativa”, e é aí que entra o amor
na história, tem outros dois trabalhos que merecem destaque: um painel
no posto de gasolina Santo Expedito, situado na avenida Alexandrino de
Alencar, bairro Barro Vermelho, e o maior painel de concreto da América
Latina que enfeita a fachada do edifício residencial Riomar, na Cidade
Alta, com motivos tropicais. “Aquele do posto é um dos que mais gosto, é
uma romaria conduzida por Luiz Gonzaga à casa de Frei Damião (se é que
ele tinha uma casa fixa?) e o do Riomar é que está no Guiness (livro dos
recordes)”, informa.
Seu método de trabalho parece simples: “Ninguém me diz o que quer. Faço
uma pesquisa, converso com as pessoas que estão encomendando o trabalho
para ver o que elas querem, o que estão pensando. Aí imagino tudo e faço
os riscos na parede. Depois vem o pedreiro e ajudantes que vão cortando
o cimento de acordo com o que vou dizendo... e por aí vai”.
Bem, depois de todos esses trabalhos seu nome ficou conhecido na praça e
os convites para trabalhar em outros lugares foram surgindo. “Nessa
época fui expor na primeira Bienal de Fortaleza e depois fui trabalhar
para um estrangeiro no Rio de Janeiro que me deu uma passagem para
conhecer a França. Passei 15 dias em Paris, mas acabei nem conhecendo
muita coisa... sabe como é: não estava bem enturmado”, lembra.
De volta ao Rio de Janeiro, foi notícia no Jornal do Brasil e recebeu a
proposta de fixar residência por lá mesmo. Estava empolgado e planejou
montar sua equipe com gente sua. Retornou à Natal para buscar a família e
convidar artistas que haviam sido seus assistentes anteriormente. “Meu
erro foi não ter cortado o cordão umbilical. Quando minha família não
quis ir comigo ao Rio preferi não voltar. Um erro que até hoje me
arrependo. Se fosse hoje não pensaria duas vezes: iria sem olhar pra
trás. Perdi toda minha inspiração e deixei de produzir”, confessa com
olhar distante.
De artista à ebrio errante, e de novo artista
Jordão mergulhou em um poço que parecia não ter fim: gastou todo o
dinheiro que havia ganho, entregou-se à bebida e só fazia uma
“esculturazinha ali e outra acolá para levantar um troco”. Nisso
passaram-se mais de 15 anos. “Perdi a criatividade, a inspiração. Por
desgosto mesmo! Vergonha da sociedade”.
Andou sem eira nem beira, meteu-se com gente que não devia, arranjou
confusão até que ‘deu a louca’ e resolveu deixar tudo para trás. Aos 56
anos, morando no mesmo bairro que o viu nascer (parte baixa de
Petrópolis, quase Rocas, na beira da praia urbana do Meio), Jordão
resolveu atravessar a nado o rio Potengi só com a roupa do corpo e foi
se instalar na outra margem, praia da Redinha. O rio Potengi separa a
zona norte da zona sul da cidade e, em sua foz, fica o famoso Forte dos
Reis Magos. “Na Redinha virei pescador. Passava o dia bebendo e quando
precisava pescava alguma coisa”.
Até que um dia alguém o reconheceu e encomendou umas esculturas para
decorar um restaurante. “Lembro até hoje: ganhei R$ 250 reais, paguei R$
150 que devia na praça e guardei R$ 100 em cheque. Sai dali andando, em
direção ao norte, até chegar em Maracajaú (praia). Continuei pescando e
bebendo, mas aos poucos voltei a me envolver com arte. Dei alguns
cursos na cidade e acabei conhecendo Alcione, irmã de uma aluna minha”.
Nada estranho se Alcione não tivesse apenas 13 anos, 44 anos a menos que
Jordão.
Namorinho de portão
“Foi amor à primeira vista!”, disse a menina que hoje tem 16 anos. “Na
verdade me apaixonei antes mesmo de conhecer ele. As meninas diziam que
tinha um homem com o nome de Jordão. O artista que estava dando aulas na
cidade”. Quando Alcione ficou sabendo que ele estava na padaria, pediu
para a mãe pra ir comprar o pão — “e olha que eu nunca queria ir”,
salientou. Dava para sentir a curiosidade e o amor que a menina exalava
por seu "painho" em todos os seus gestos.
“Conheci ele e comecei a gostar dele. Ele começou a ir lá em casa tomar
café e ver televisão, só depois de uns três meses que fomos dar o
primeiro beijo. Nunca tinha beijado ninguém e disse que só iria namorar
ele se tirasse a barba e parasse de beber”, contou a adolescente. “Aí as
pessoas começaram a olhar pra ele... não é amor?! Só que já estávamos
namorando”, disse com o aval e o olhar cúmplice e carinhoso do artista.
Claro que Alcione teve que enfrentar toda a família. Ouviu o que não
queria, se defendeu como pôde e teve a coragem de sair de casa para
viver seu amor. “Foi Alcione que me salvou, quem estendeu a corda para
eu sair do poço. Quero me casar com ela. Hoje eu quero é trabalhar e
criar minhas obras”, garante. Jordão ainda não se separou no papel da
primeira esposa, com quem teve três filhas: Jordânia, Bristiane, de 21
anos, e Joyce, 19.
Com o dinheiro que já conseguiu juntar, comprou uma casinha simples no
alto da rua do Motor — com direito à vista para o mar e quintal íngreme
com muitas árvores frutíferas — no mesmo bairro onde cresceu. Montou um
ateliê improvisado nos fundos, onde me recebeu com vinho e peixe frito.
Cheio de planos, pensa em comprar os terrenos vizinhos para construir
sua nova casa e um ateliê maior. “Também quero organizar uma exposição
individual com os trabalhos de Alcione... ela é meu porto seguro e estou
aqui por causa do nosso amor”, aposta.
Se o final será feliz só o tempo dirá, o fato é que a arte de Jordão
voltou a correr em suas veias movido pelo amor juvenil de Alcione. Disso
ninguém pode duvidar!!